A força invisível que desintegra empresas (e como rituais podem combatê-la)

A força invisível que desintegra empresas (e como rituais podem combatê-la)

Na última semana, reunimos nossos canais comerciais de todo o Brasil para o PitStop Sienge, nosso evento comercial de abertura de ano. Na manhã do mesmo dia, realizamos o Kickoff com todos os colaboradores da unidade de Construção Civil da Starian. Os mesmos números, a mesma estratégia e a mesma transparência.

Alguém poderia perguntar: por que tanto esforço? Por que tirar pessoas de suas rotinas, arcar com custos de deslocamento, investir dias inteiros em alinhamento?

A resposta está em uma palavra que tomamos emprestada da física: entropia.

O que a física ensina sobre gestão

A segunda lei da termodinâmica estabelece que sistemas isolados tendem naturalmente à desordem. Um copo de água quente esfria. Um quarto arrumado se desarruma. Uma máquina sem manutenção para de funcionar.

Ninguém precisa fazer nada para que isso aconteça. É a tendência natural das coisas. E as organizações seguem a mesma lei.

Sem intervenção deliberada, empresas se fragmentam. Silos se formam entre áreas que deveriam colaborar. A comunicação se deteriora em ruído. O propósito original se dilui em metas departamentais desconectadas. A confiança entre times diminui gradualmente, quase imperceptivelmente.

Isso não acontece porque alguém errou, mas porque essa é a física organizacional.

A entropia cultural é a tendência natural de qualquer empresa perder coesão com o tempo. E quanto maior a empresa, quanto mais distribuída geograficamente, quanto mais complexa sua operação, mais forte é essa força desintegradora.

Como a entropia se manifesta

A entropia cultural ocorre silenciosamente, em pequenas deteriorações diárias, que parecem insignificantes de forma isolada.

Começa com uma reunião que deixa de acontecer porque "todo mundo está ocupado". Continua com informações que param de circular porque "não é responsabilidade de ninguém comunicar". Avança quando áreas deixam de conversar porque "cada um tem suas prioridades".

Novos colaboradores entram e nunca entendem o todo. Parceiros comerciais se tornam puramente transacionais. Líderes de diferentes áreas param de se conhecer pessoalmente. A estratégia da empresa vira um documento que ninguém lê.

Em "Conversas Cruciais" (link pago), os autores identificam que o verdadeiro dano nas organizações ocorre no "tempo de espera" - o período entre identificar um problema e finalmente discuti-lo. Quanto maior esse intervalo, maior a entropia acumulada.

Em "A Mentalidade do Fundador" (link pago), Chris Zook e James Allen descrevem a complexidade como "a exterminadora silenciosa do crescimento". Empresas não morrem a partir de um golpe. Morrem de mil pequenas desconexões que se acumulam até que ninguém mais sabe por que estão ali.

O efeito composto funciona nos dois sentidos. Pequenas melhorias diárias geram resultados extraordinários. Pequenas deteriorações diárias geram colapsos que parecem inexplicáveis quando finalmente se manifestam.

Rituais são forças anti-entropia

Se a entropia é a tendência natural à desordem, rituais bem desenhados são forças deliberadas de reordenação.

Não as reuniões burocráticas que existem porque "sempre existiram". Mas cerimônias estruturadas com propósito claro de combater ativamente a desintegração natural do sistema.

Andy Grove, em "Gestão de Alta Performance" (link pago), argumenta que o output de um gestor não é seu trabalho individual - é o resultado das pessoas sob sua supervisão ou influência. Reuniões estruturadas de alta alavancagem multiplicam esse output exponencialmente.

Ram Charan, em "O que o CEO quer que você saiba" (link pago), descreve os "mecanismos de operação social" como rituais que sincronizam esforços e aceleram decisões. Ele cita as reuniões semanais do Walmart como exemplo: encontros que parecem simples, mas que mantêm uma organização gigantesca operando como um organismo único.

Toda empresa tem reuniões. O importante aqui é entender se se suas reuniões combatem entropia ou apenas a disfarçam.

Uma arquitetura de cerimônias

Atuamos com canais comerciais distribuídos pelo país e times de desenvolvimento híbridos, com colaboradores em múltiplas localidades. A entropia tem todas as condições para prosperar.

Por isso, construímos deliberadamente uma arquitetura de cerimônias com frequências, públicos e propósitos distintos:

Via Starian é um evento trimestral, que reúne os colaboradores de todos os segmentos de negócio da Starian. Acompanhamos a execução do orçamento, tendo acesso aos detalhes do crescimento e da margem. Somos atualizados sobre as estratégias de crescimento orgânico e inorgânico, e outras iniciativas corporativas. O propósito é combater silos entre segmentos. Quando todos sabem o que acontece na empresa inteira, ninguém opera como ilha.

O Encontro de Líderes é um evento corporativo semestral e reúne diretores, gerentes e coordenadores de todos os segmentos da empresa, para revisão da estratégia. Convidados externos podem trazer perspectivas novas. Dinâmicas de entrosamento fortalecem conexões pessoais. O propósito é combater a fragmentação entre líderes que, no dia a dia, raramente se encontram.

Kickoff UNIC é um evento anual e exclusivo da unidade de Construção Civil. Entramos em detalhes da estratégia específica do nosso segmento. O propósito é combater a perda de foco estratégico que naturalmente acontece ao longo de doze meses de operação.

O PitStop Sienge também é anual, mas voltado aos nossos canais comerciais. Apresentamos estratégia, metas de crescimento, EBITDA, número de clientes desejado. O propósito é combater o desalinhamento com o ecossistema de canais que são corresponsáveis pelo atingimento dessas metas.

Reuniões táticas mensais, envolvendo toda a liderança do Sienge, sincronizam sobre o atingimento dos objetivos comerciais do mês encerrado, sobre o avanço dos objetivos dos times de suporte, produto e tecnologia, e atualizam o status dos principais projetos de todas as áreas.

Panoramas de Produto e Tecnologia são encontros trimestrais, mas com foco diferente. Todos os níveis da gestão de produto e tecnologia - diretores, gerentes, coordenadores - encontram-se com cada time de desenvolvimento de produto. Analisamos resultados do trimestre: roadmap cumprido, adoção de funcionalidades, indicadores de vazão e qualidade. Mas além dos números, compartilhamos vitórias do período e abrimos espaço para que os times levem pedidos à gestão. O propósito é combater o distanciamento entre quem executa e quem define direção.

A mesma lógica é aplicada nos Panoramas de Suporte ao Usuário. A gestão de suporte se encontra com cada time para fechamento do trimestre.

Realizamos ainda outras cerimônias, mas estas são as principais que envolvem as equipes de Suporte e Desenvolvimento.

O detalhe que revela a cultura

Na primeira semana de fevereiro, o Kickoff UNIC aconteceu na manhã do primeiro dia do PitStop Sienge. Ao mesmo tempo, todos os colaboradores da unidade e todos os canais comerciais foram atualizados sobre nossa estratégia para o ano.

A maioria das empresas trata informações de orçamento, EBITDA e metas de crescimento como confidenciais. Parceiros comerciais recebem apenas o necessário para vender: tabela de preços, materiais de marketing, metas de comissão.

Nós fazemos diferente. Os canais sabem exatamente onde queremos chegar. Conhecem os números reais. Entendem a estratégia completa.

Por quê?

Porque entropia prospera onde há assimetria de informação. Quando parceiros não conhecem o todo, tomam decisões baseadas em fragmentos. Otimizam para o curto prazo. Priorizam o que dá comissão imediata, não o que constrói o negócio.

Quando parceiros conhecem a estratégia completa, tornam-se corresponsáveis pelo resultado. Não são vendedores comissionados. São extensões da operação.

"A Organização Dirigida por Valores" (link pago) descreve que o engajamento possui duas dimensões: emocional (alinhamento de valores) e intelectual (alinhamento de missão). Funcionários engajados nas duas dimensões entregam performance até 3,9 vezes maior. A mesma lógica se aplica a parceiros comerciais.

Cerimônias de fundação: quando o novo precisa de energia inicial

Há mais de 35 anos desenvolvemos o Sienge. No ano passado, lançamos algo completamente diferente: um marketplace para comercialização de insumos da construção civil. Não é SaaS. É modelo transacional. Território novo.

Na última semana, reunimos presencialmente os colaboradores dessa iniciativa, vindos de várias partes do país, para um Kickoff específico do Sienge Obra Hub.

Alguém poderia argumentar: "Vocês já têm Via Starian, Panoramas, todas essas cerimônias. Por que mais uma?"

Porque iniciativas novas precisam de cerimônias de fundação.

A entropia começa a agir no primeiro dia. Uma equipe distribuída, trabalhando em algo novo, sem histórico compartilhado, é terreno fértil para fragmentação. Cada pessoa traz sua interpretação da estratégia. Cada localidade desenvolve sua própria cultura informal.

O Kickoff de fundação cria a energia inicial: estabelece o "nós" antes que o "eu" se consolide; alinha expectativas antes que as divergências se cristalizem.

"Os Primeiros 90 Dias" (link pago) argumenta que energia investida no início de qualquer transição rende dez vezes mais que correções posteriores. O mesmo vale para iniciativas. O custo de alinhar 50 pessoas no início é uma fração do custo de realinhar 50 pessoas depois que cada uma seguiu seu próprio caminho por meses.

Reuniões que combatem a entropia

Nem toda reunião combate entropia. Algumas apenas a disfarçam.

Reuniões onde só os líderes falam, onde números são apresentados mas nunca questionados, onde todos concordam publicamente e discordam nos corredores - essas reuniões são teatro corporativo. Criam a ilusão de alinhamento enquanto a entropia continua operando nos bastidores.

Rituais que realmente funcionam têm características específicas:

Compartilham informação real, não versões sanitizadas. Quando apresentamos EBITDA e metas de crescimento, são os números reais. Não há versão "para consumo interno" e versão "para parceiros". A mesma verdade para todos.

Incluem espaço para feedback bidirecional. Nos Panoramas, os times podem levar pedidos à gestão. Não é só a liderança falando para baixo. É um canal de volta. Quando o fluxo é só descendente, a entropia apenas muda de forma - transforma-se em desengajamento silencioso.

Têm cadência previsível que cria expectativa. Quando todos sabem que haverá um Panorama no final do trimestre, comportamentos mudam ao longo deste período. O ritual não é só o evento em si - é a força gravitacional que ele exerce sobre o período inteiro.

Conectam o trabalho individual ao todo maior. Um desenvolvedor que só conhece seu backlog opera diferente de um desenvolvedor que entende como seu trabalho se conecta à estratégia da empresa. Rituais eficazes tornam essa conexão explícita, repetidamente.

Celebram vitórias, não apenas cobram resultados. Nos Panoramas, há um momento específico para compartilhar "aquilo que o time se orgulhou de conduzir". Reconhecimento não é gentileza. É combustível. É o que transforma obrigação em pertencimento.

A escolha que toda empresa faz

A entropia cultural não é culpa de ninguém. É física organizacional. Toda empresa, sem exceção, está sujeita a ela.

Mas ignorá-la é uma escolha.

Empresas que crescem e se fragmentam não falharam por incompetência; mas por não investir em infraestrutura de alinhamento. Trataram reuniões como custo, não como investimento. Viram cerimônias como burocracia, não como manutenção preventiva.

Questione-se sobre o que você está fazendo deliberadamente para combater a entropia:

  • Quantas vezes por ano seus times veem a estratégia completa da empresa?
  • Quantas vezes seus parceiros comerciais entendem o todo, não apenas sua comissão?
  • Quantas vezes seus líderes de diferentes áreas se encontram pessoalmente, não apenas em calls de alinhamento?
  • Quantas vezes a gestão vai até os times de execução, não apenas espera relatórios?

Se a resposta for "raramente" ou "nunca", a entropia está vencendo. Sem ser notada, silenciosamente. Até que um dia você olha ao redor e percebe que ninguém mais sabe por que está ali.

O custo real

Reunir canais comerciais de todo o Brasil; reunir colaboradores de múltiplas localidades; parar a operação por um dia para um Kickoff: tudo isso custa dinheiro.

Mas, qual é o custo de não fazer?

É o custo de parceiros desalinhados que vendem o produto errado para o cliente errado. É o custo de times que retrabalham porque não entenderam a prioridade. É o custo de líderes que tomam decisões contraditórias porque cada um tem sua própria interpretação da estratégia. É o custo de talentos que vão embora porque nunca se sentiram parte de algo maior.

"A confiança sempre afeta velocidade e custos", escreve Richard Barrett em "A Organização Dirigida por Valores" (link pago). "Quando aumenta, acelera processos e reduz custos. Quando diminui, desacelera e aumenta custos."

Rituais bem desenhados são investimentos em confiança. E confiança é o que permite que organizações complexas operem sem atrito.

A entropia é invisível. A conexão humana também é. Quando você coloca pessoas na mesma sala, compartilhando a mesma informação, olhando na mesma direção - algo acontece que nenhum documento, email ou call consegue replicar: a força anti-entropia em ação.

Quais rituais sua empresa tem para combater a desintegração natural? Ou você está apenas esperando que o alinhamento aconteça sozinho?

Porque se está esperando, saiba que a entropia não espera.

Observação: Como Associado/Influenciador Amazon, eu ganho com compras qualificadas.

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