Mentoria - O que os livros não conseguem te ensinar
Se você está avançando em sua carreira, de vez em quando se sentirá sobrecarregado. Ao progredir, pode enfrentar a síndrome do impostor — sentirá que não está qualificado e não sabe o que fazer a respeito de um desafio. Isso é normal e indica que você está no caminho certo.
Alguns desses desafios não dependem de aprender mais, mas de enxergar melhor. Você já tem conhecimento técnico, já geriu equipes, já entregou projetos complexos; mas as decisões que chegam agora são de outra natureza:
- Como estruturar a organização de engenharia para suportar o próximo ciclo de crescimento?
- Como navegar a relação com um CEO que não entende tecnologia?
- Como equilibrar inovação com estabilidade em um produto que já tem clientes reais?
Essas perguntas raramente têm resposta nos livros ou nos cursos. Elas demandam algo diferente: alguém que já passou pela mesma experiência. É para isso que serve um mentor. Não para te dar respostas prontas, mas para ampliar o seu campo de visão.
Ao se deparar com esse tipo de pergunta, você tem uma escolha. Tentar agir com as mesmas ferramentas a que já está acostumado - e arriscar um fracasso - ou buscar ajuda com um mentor.
Buscar ajuda o deixará à frente dos demais. À frente daqueles que não a buscam, dos que não a reconhecem, ou daqueles que a recusam quando oferecida.
A maior barreira para buscar um mentor não está na dificuldade de encontrar a pessoa certa. Está na crença que a maioria dos líderes carrega: a de que pedir ajuda vai fazer você parecer menos competente. Que revelar uma dúvida vai comprometer a imagem que você levou anos construindo. Pesquisas em psicologia social mostram que quando alguém pede conselho a outra pessoa, quem recebe o pedido tende a avaliar o solicitante como mais inteligente, não menos. Pois você só pede a opinião de alguém que você respeita o suficiente para que ela valha algo. Pedir é, na prática, um elogio implícito. Existe ainda um segundo efeito: quem ajuda passa a gostar mais de quem foi ajudado. Fazer um favor cria um vínculo. Ao buscar um mentor, você não está se colocando numa posição de inferioridade - você está oferecendo a alguém experiente a oportunidade de fazer algo que pessoas nesse estágio genuinamente valorizam: transmitir o que aprenderam. O problema real, portanto, não é como os outros te enxergam. É como você imagina que eles te enxergam. E essa distância entre a percepção real e a imaginada é especialmente cara para líderes de tecnologia, que chegaram onde estão resolvendo problemas sozinhos. A autossuficiência que os trouxe até aqui se torna, num certo ponto, o principal obstáculo para o próximo salto.
Mentoria, coaching e networking não são a mesma coisa
Analisando minha carreira, percebo já ter contratado coachings. E por muito tempo usei os termos como se fossem intercambiáveis. Mas não são. Mentoria, coaching e networking servem a propósitos distintos.
O networking é uma troca de valor entre pares - você constrói uma rede para abrir portas, compartilhar referências e criar oportunidades mútuas. O coaching é uma prática focada no seu desempenho presente: o coach não precisa ter feito o que você faz, ele precisa saber fazer as perguntas certas para que você mesmo encontre o caminho. A mentoria é outra coisa. Ela se baseia em experiência vivida - o mentor já percorreu um trajeto parecido com o seu e carrega cicatrizes que nenhum framework captura. A relação é mais longa, mais profunda e menos estruturada do que uma sessão de coaching, e menos transacional do que o networking. Confundir os três leva a buscar mentoria onde há apenas contato, ou coaching onde você precisaria de alguém que já errou da mesma forma que você está prestes a errar.
Patty Azzarello, em Rise: 3 Practical Steps for Advancing Your Career, Standing Out as a Leader, and Liking Your Life (link pago), resume bem o valor específico da mentoria:
Sem mentores, você não consegue trabalhar com rapidez suficiente, com um nível de valor suficientemente alto, de forma suficientemente visível ou se conectar com as pessoas influentes certas. Os mentores ajudam você a ter um desempenho melhor, uma aparência melhor e conexões melhores.
Mentores de quem você aprende
Procure mentores com quem você aprenderá - nunca temos pessoas inteligentes demais em nossas vidas. Na prática, para líderes de tecnologia, isso significa buscar alguém que já navegou a complexidade de escalar times, tomar decisões com informação incompleta e sustentar resultados sob pressão. Algumas formas concretas em que essa relação se manifesta:
Auxílio na entrega dos seus resultados: Não é esperado que saibamos tudo, mas é esperado que entreguemos resultado. Os outros contam com nossa capacidade de encontrar e obter o tipo certo de ajuda, de forma a não comprometer nossas entregas. Executar essa capacidade quando necessário é parte do papel.
Aprendizado avançado: Seu conhecimento sobre um determinado tópico é a soma do que você já sabe, do que você consegue aprender por conta própria e do que você pode obter com outras pessoas. Quanto mais pessoas você puder consultar, maior será seu acervo - e mais rápido você chegará a decisões melhores.
Aumento da capacidade: Pedir ajuda também aumenta sua capacidade no longo prazo. Quando se está tão ocupado, pode ser difícil enxergar maneiras de resolver um problema ou de se destacar. Os mentores podem desafiá-lo a perceber como ampliar o trabalho, gerar transformações ou desenvolver a equipe.
Exposição dos pontos cegos: É fácil ficar tão envolvido com o trabalho atual a ponto de perdermos de vista as mudanças nas condições de negócio ou do cenário do mercado. A clareza com que alguém de fora enxerga um problema é facilitada exatamente por ele não estar viciado naquele contexto. Mentores ajudam a enxergar o que você não está vendo, a evitar armadilhas e a lidar com regras não ditas.
Mentores no cargo que você deseja
Ter pelo menos um mentor que já ocupa a função que você almeja é uma das formas mais eficazes de encurtar o caminho. Ele pode te ajudar a entender os requisitos reais do papel antes de você estar nele, dar acesso a projetos daquele nível para que você acumule experiência prática antecipada, e recomendar seu nome quando oportunidades surgirem. Há também um aspecto menos óbvio: parte de conseguir uma posição é demonstrar que você se encaixa socialmente naquele nível. Ter mentores que já estão lá significa que você praticou esse relacionamento antes de precisar dele de verdade.
Mentores que são influenciadores
Os mentores podem expandir sua rede exponencialmente, dando-lhe acesso a pessoas com as quais você talvez não conseguisse se conectar de outra forma. Para líderes de tecnologia, isso é especialmente relevante: a visibilidade do trabalho técnico raramente sobe na organização por conta própria - ela precisa de intermediários que a traduzam e a defendam.
Construir uma relação de mentoria com alguém no círculo do seu gestor - o chefe do seu chefe, ou pares dele - aumenta significativamente suas chances de ser reconhecido e recompensado, porque haverá alguém que o conhece bem e está motivado a falar bem de você quando seu nome surgir.
Mentores para cobertura de risco
O que acontece com você em uma reestruturação, uma redução de pessoal ou uma aquisição? Mentores, por definição, se importam com você e seu sucesso. Quando surgirem discussões sobre o seu valor para a empresa, a diferença entre ter alguém que fale de você de forma positiva e ninguém te mencionar é enorme.
Mentores como porto seguro
Há também o valor mais simples e mais humano da mentoria: ter alguém com quem você pode se abrir nos momentos mais difíceis. "Estou travado. Não sei como fazer isso." Ou: "Estou com muita dificuldade nisso - você consegue ver o que estou perdendo?" Essa abertura, que seria impossível com um subordinado e arriscada com um par, é natural com um mentor. E frequentemente é exatamente isso que desbloqueia o caminho.
Que tipo de pessoas buscar
Algumas referências práticas que funcionam bem na realidade de líderes de tecnologia:
- Pessoas dois ou três estágios de carreira à sua frente, que já viveram os dilemas que você está prestes a enfrentar.
- Alguém com uma trajetória significativamente mais longa que a sua, capaz de oferecer perspectiva de longo prazo e atuar como defensor da sua carreira nos momentos críticos.
- Colegas talentosos em outras áreas da empresa - eles oferecem perspectivas sobre como sua equipe é percebida de fora, o que é difícil de enxergar de dentro.
- Pessoas que exercem a sua função em setores diferentes. O olhar de quem resolve problemas parecidos em contextos distintos é frequentemente mais revelador do que o de quem está no mesmo mercado.
- Alguém mais jovem, especialmente se você está num momento de transição tecnológica. Não para validar o que você já sabe, mas para ser desafiado no que você ainda não viu.
Quantos mentores você deve ter?
Não existe um número certo - e desconfie de qualquer resposta que pareça muito precisa. O que importa é ter clareza sobre o que você precisa em cada momento da carreira e buscar as pessoas certas para cada tipo de conversa. Alguns mentores serão relações formais e duradouras. Outros serão interações pontuais com alguém que tem exatamente a experiência que você precisa naquele momento. O que não funciona é não ter nenhum.
A minha experiência com mentores
Sempre que enfrento um desafio no trabalho, o primeiro lugar a que recorro são os livros. Eles são minha principal fonte de aprendizagem. Concordo totalmente com o pensamento de Steven Kotler, autor de A Arte do Impossível (link pago), de que "livros são a forma de conhecimento mais radicalmente condensada do planeta." Mas, como vimos, nem todas as respostas estão nos livros.
Ao reler Rise (link pago) - que dedica um capítulo inteiro a mentores - parei para refletir sobre esse meu comportamento padrão de sempre buscar a resposta nos livros. Será que isso tornou a resolução de alguns problemas mais difícil ou demorada?
Tenho a sorte de trabalhar com um líder que conheço há mais de 25 anos, e do qual sou amigo. Foram inúmeras as vezes em que pedi auxílio a ele. A maioria das vezes concordei. Algumas discordei. Lembro até de situações em que não dei muito valor à resposta recebida - concordando com ela totalmente só quando encontrei a mesma ideia nos livros.
Analisando agora, entendo que, mesmo informalmente, é uma mentoria: longa, profunda e não obrigatoriamente estruturada. Uma mentoria que eu não percebi como tal no momento em que acontecia.
Mentoria não precisa ter nome para existir. Durante anos tive conversas com alguém em quem confio, que já viveu situações parecidas com as minhas, que me desafiou quando precisei ser desafiado e me apoiou quando precisei de apoio. Só recentemente percebi que isso era mentoria - mesmo sem agenda, sem contrato, sem estrutura formal. Talvez você já tenha algo assim na sua vida e ainda não reconheceu. Seu primeiro passo pode não ser encontrar um mentor, mas parar e perceber se já existe alguém nesse papel, ainda que informalmente. Se existir, valorize. Se não existir, agora você sabe que vale muito a pena buscar - e que pedir é, na prática, um elogio.
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